A Quaresma, enquanto tempo litúrgico de conversão e aprofundamento espiritual, é um chamado incessante ao retorno ao coração de Cristo, isto é, um coração que amou e continua amando sem medida. Neste contexto, a encíclica Dilexit nos, do Papa Francisco, publicada em 24 de outubro de 2024, estabelece um horizonte teológico e pastoral para a caminhada quaresmal, pois coloca no centro da reflexão cristã o amor humano e divino do Coração de Jesus Cristo como fonte e meta da vida cristã. O título mesmo do documento, Dilexit nos – “Ele nos amou” – ecoa a experiência de salvação e amizade com Deus revelada em Cristo e oferecida à Igreja como um caminho de transformação interior e comunitária.
De início, o Papa nos recorda a base bíblica dessa certeza: “amou-nos, diz São Paulo referindo-se a Cristo (Rm 8, 37), para nos ajudar a descobrir que nada ‘será capaz de separar-nos’ desse amor” e que este amor foi anunciado pelo próprio Senhor aos seus discípulos no Evangelho: “Eu vos amei” (Jo 15, 9-12). Nessa afirmação está contida a proposta quaresmal: conhecer, redescobrir e responder ao amor que Cristo nos tem. Longe de ser um documento meramente devocional, a encíclica, Dilexit nos, nos oferece uma perspectiva cristológica que ilumina a experiência quaresmal de jejum, oração e esmola, como vias para poder abrir o coração ao amor de Cristo e permitir que Ele nos conduza a uma vida transformada de conversão.
A encíclica relembra que o símbolo do coração tem sido tradicionalmente usado para expressar o amor de Jesus Cristo, e propõe que este símbolo continue a ser significativo para a fé contemporânea, mesmo em uma “idade de superficialidade”, marcada por ritmos apressados, consumo incessante e distrações que desviam o homem do essencial. Esta crítica cultural não está distante da proposta e do ensinamento quaresmal: a Quaresma nos convida a despojamentos que têm caráter antropológico e espiritual, ou seja, poder abrandar o ritmo, esvaziar-nos das falsas seguranças e reencontrar o coração que nos faz verdadeiramente vivos.
O Papa Francisco descreve o coração humano como o lugar mais íntimo da verdade: “O coração é também o lugar da sinceridade, onde o engano e a dissimulação não têm lugar. Geralmente indica as nossas verdadeiras intenções, aquilo que realmente pensamos, cremos e desejamos.” Essa ênfase na verdade interior do coração dialoga diretamente com a proposta quaresmal de “guardar o coração com toda vigilância” (cf. Pr. 4, 23), pois a Quaresma nos lembra que a conversão exige uma transformação, a qual afeta a íntegra interioridade humana.
A Quaresma é, sobretudo, um tempo de preparação para a Páscoa, em que vivemos o mistério pascal de Cristo, paixão, morte e ressurreição, mediante um itinerário de purificação, iluminação e união com Cristo. Nesse sentido, a encíclica, Dilexit nos, aproxima-se da teologia pascal ao afirmar que Cristo nos amou primeiro: “Graças a Jesus, ‘conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele’ (1 Jo 4,16).” A Quaresma, como tempo de graça, é oportunidade privilegiada para contemplar esse amor que é mantenedor da fé e impulsionador do discipulado. O jejum quaresmal, por exemplo, torna-se um meio para saborear a fome de Deus e reconhecer a extrema doçura de seu amor misericordioso; a oração não é mais uma rotina, mas um encontro contínuo com o Coração de Cristo; a esmola nos faz descobrir que compartilhar amor é reconhecer Cristo nos irmãos e irmãs.
Além disso, a encíclica propõe ainda que o coração de Cristo é “a chave para compreender não apenas a fé cristã, mas o próprio sentido da história”. Essa afirmação ecoa diretamente na prática quaresmal: a história pessoal de cada fiel, marcada por feridas, dúvidas e pecados, pode ser recriada à luz do amor redentor de Cristo, ou seja, um amor que nos convida a participar de sua missão de reconciliação no mundo.
Um dos eixos fundamentais da reflexão de Francisco é a convicção de que o coração continuará a ser, para a fé cristã, o símbolo mais eficaz da presença do amor de Deus em meio a nós. Ele escreve que “a devoção ao coração de Cristo não é a veneração de um único órgão separado da Pessoa de Jesus. O que contemplamos e adoramos é o próprio Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, representado por uma imagem que acentua o seu coração.” Essa compreensão evita dualismos e resgata a dimensão antropológica da fé: o amor de Deus é encarnado, humano e divino ao mesmo tempo, isto é, um amor que se revela mais plenamente na vida e na pessoa de Jesus.
Essa linguagem do coração constitui um eixo teológico profundo para a reflexão quaresmal, pois nos chama a ir além das práticas exteriores para alcançar as profundezas da vida espiritual. Desse modo, a Quaresma é um tempo de encontro transformador com Cristo no mais íntimo de nossa existência, sendo realizada no centro do nosso ser, onde Deus nos chama a amar e ser amados.
O Papa também aponta que “é só começando pelo coração que as nossas comunidades conseguirão unir e reconciliar mentes e vontades diferentes, para que o Espírito nos guie na unidade como irmãos e irmãs.” Aqui se percebe o sentido comunitário da Quaresma: a conversão é também um apelo à transformação das relações comunitárias e sociais. Sendo assim, a reconciliação com o Coração de Cristo tem consequências que vão além do indivíduo e alcançam o corpo eclesial e a sociedade humana.
A encíclica de Francisco também se insere na tradição católica de devoção ao Sagrado Coração, retomando reflexões de documentos papais anteriores sobre o mesmo tema, como as encíclicas dos papas Leão XIII, Pio XI e Pio XII sobre o Sagrado Coração, e recordando a importante ligação dessa devoção com a história da Igreja. Esta tradição, que tem sua raiz nas Sagradas Escrituras, é reforçada agora com uma linguagem pastoral e teológica que a torna relevante para a reflexão cristã no mundo contemporâneo.
Portanto, a Quaresma nos convida, a “guardar com toda vigilância nossos corações”; esta palavra ressoa de maneira vibrante com a proposta de Dilexit nos, que nos desafia a reconhecer o amor com que Cristo nos amou. Nesse sentido, uma resposta quaresmal autêntica supõe uma abertura radical a esse amor, que nos transforma interiormente e nos capacita a amar os outros com o mesmo coração compassivo de Cristo. Em outras palavras, a Quaresma é um tempo favorecido para aprofundar a experiência desse amor que é, ao mesmo tempo, humano e divino.
No contexto quaresmal, leitor e leitora são desafiados a contemplar o Coração de Cristo como a realidade que nos chama a uma conversão contínua e não apenas a um estado de conversão. O amor de Cristo é uma proposta de vida que nos extrai de qualquer superficialidade existencial e nos ajuda a enfrentar as grandes questões de nossa época com serenidade, compaixão e compromisso. Em um mundo marcado por sensações de vazio, indiferença e isolamento, a encíclica nos recorda que somente um coração tocado pelo amor de Deus pode responder com autenticidade às feridas humanas.
O documento papal também traz uma dimensão missionária, que pode ser relacionada ao tempo quaresmal, ou seja, ao contemplar o Coração de Cristo, somos enviados a partilhar esse amor com os outros, especialmente com os mais pobres, marginalizados e sofredores. O Papa Francisco destaca que “o mundo pode mudar, começando pelo coração”; este princípio resume a íntima ligação entre a transformação interior promovida pela Quaresma e a missão cristã que emerge dessa experiência de amor.
Assim, a Quaresma pode ser vista à luz de Dilexit nos como um tempo de penitência, bem como, como uma escola do amor divino, em que cada gesto de conversão é um passo em direção a um coração mais semelhante ao de Cristo. Diante disso, a oração se torna um diálogo contínuo com o Coração de Deus; o jejum se torna um espaço para reconhecer nossa dependência de Cristo e não de bens passageiros; e, por fim, a esmola se torna um testemunho concreto de solidariedade amorosa com os nossos irmãos e irmãs.
REFERÊNCIAS
FRANCISCO, Carta Encíclica Dilexit nos: Sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus Cristo. Vaticano: 24 out. 2024.
Me. Pe. Rarden Pedrosa,scj
Mestre em Educação na PUC-SP. Pós-graduado em Ontologia, Gestão Educacional e Psicologia Educacional. Secretário da Associação Dehoniana Brasil Meridional – ADBM e Acadêmico da Academia Formiguense de Letras.
rardenscj@gmail.com
@rardenpedrosa













